segunda-feira, 27 de abril de 2009
A Estranha Felicidade
E uma dama elegante que passa, nos encanta mas se vai
A mais bela das ondas marinhas, cuja intensidade de sua beleza é tão tênue quanto sua duração
Como um pôr do sol, belissimo, que acontece todos os dias, mas são poucos os que o vêem
Como uma chuva que rega a terra seca, mas que se vai e tarda em voltar
A felicidade existe, não duvido
Mas não a reconheço
Tenho certeza que ja passou por mim
Não sei se foi uma passagem rapida ou demorada
Nem sequer sei se ela está aqui neste momento
Seu disfarce é tão perfeito, que não consigo reconhecê-la
Paulo Farias
sexta-feira, 24 de abril de 2009
A Viagem de Trem
como uma viagem de trem, cheia de embarques e
desembarques, de pequenos acidentes pelo caminho, de
surpresas agradáveis com alguns embarques e de
tristezas com os desembarques...
Quando nascemos, ao embarcarmos nesse trem,
encontramos duas pessoas que, acreditamos, farão
conosco a viagem até o fim:
Nossos pais. Não é verdade?
Infelizmente, em alguma estação eles
desembarcam, deixando-nos órfãos de seus carinhos,
proteção, amor e afeto.
Muitas pessoas tomam esse trem a passeio.
Outros fazem a viagem experimentando somente tristezas.
E no trem há, também, pessoas que passam de vagão a vagão,
prontas para ajudar a quem precisa. Muitos descem e
deixam saudades eternas.
Outros tantos viajam no trem de tal forma que, quando desocupam seus assentos,
ninguém sequer percebe.
Curioso é considerar que alguns passageiros que nos são tão caros, acomodam-se em vagões diferentes do nosso.
Isso obriga a fazer essa viagem separados deles.
Mas claro que isso não nos impede de, com grande dificuldade, atravessarmos
nosso vagão e chegarmos até eles.
O difícil é aceitarmos que não podemos nos assentar ao seu lado, pois outra pessoa estará ocupando esse lugar.
Essa viagem é assim:
cheia de atropelos, sonhos, fantasias, esperas, embarques e desembarques.
Sabemos que esse trem jamais volta.
Façamos, então, essa viagem, da melhor maneira possível, tentando manter um bom relacionamento com todos os passageiros, procurando em cada um deles o que tem de melhor, lembrando sempre que, em algum momento do trajeto, poderão fraquejar e, provavelmente, precisaremos entender isso.
Nós mesmos fraquejamos algumas vezes.
E, certamente, alguém nos entenderá.
O grande mistério, afinal, é que não sabemos em qual parada desceremos.
E fico pensando:
quando eu descer desse trem sentirei saudades? Sim. Deixar meu filho viajando nele sozinho será muito triste.
Separar-me de alguns amigos que nele fiz, do amor da minha vida,
será para mim dolorido. Mas me agarro na esperança de que, em
algum momento, estarei na estação principal, e terei a emoção de vê-los chegar com sua bagagem, que não tinham quando desembarcaram.
E o que me deixará feliz é saber que, de alguma forma, posso ter colaborado
para que ela tenha crescido e se tornado valiosa.
Agora, nesse momento, o trem diminui sua velocidade para que embarquem e desembarquem pessoas. Minha expectativa aumenta, à medida que o trem vai
diminuindo sua velocidade... Quem entrará? Quem saíra?
Eu gostaria que você pensasse no desembarque do trem, não só como a representação da morte, mas, também, como o término de uma história, de algo que duas ou mais pessoas construíram e que, por um motivo íntimo,
deixaram desmoronar.
Fico feliz em perceber que certas pessoas, como nós, têm a capacidade de reconstruir para recomeçar. Isso é sinal de garra e de luta, é saber viver, é tirar o
melhor de "todos os passageiros". Agradeço a Deus por você fazer parte da minha viagem, e por mais que nossos assentos não estejam lado a lado, com certeza,
o vagão é o mesmo.
Silvana Duboc
Rua das Rimas
A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua de poeta, reta, quieta, discreta,
direita, estreita, bem feita, perfeita,
com pregões matinais de jornais, aventais nos portais, animais e varais nos quintais;
e acácias paralelas, todas elas belas, singelas, amarelas,
douradas, descabeladas, debruçadas como namoradas para as calçadas;
e um passo, de espaço a espaço, no mormaço de aço laço e basso;
e algum piano provinciano, quotidiano, desumano,
mas brando e brando, soltando, de vez em quando,
na luz rara de opala de uma sala uma escala clara que embala;
e, no ar de uma tarde que arde, o alarde das crianças do arrabalde;
e de noite, no ócio capadócio,
junto aos lampiões espiões, os bordões dos violões;
e a serenata ao luar de prata (Mulata ingrata que me mata...);
e depois o silêncio, o denso, o intenso, o imenso silêncio...
A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua qualquer onde desfolha um malmequer uma mulher que bem me quer
é uma rua, como todas as ruas, com suas duas calças nuas,
correndo paralelamente, como a sorte indiferente de toda gente, para a frente,
para o infinito; mas uma rua que tem escrito um nome bonito, bendito, que sempre repito
e que rima com mocidade, liberdade, tranqüilidade: RUA DA FELICIDADE...
Guilherme de Almeida
Endereço das Cinco Marias
Sou o tipo acabado do sujeito
que não arranja nada nesta vida.
Gosto de cinco Marias nesta vida.
A primeira tinha uma pinta na cara,
eu adorava aquela pinta.
Maria do Rosário jurava pela alma da mãe dela
que só havia de casar comigo.
Um belo dia apareceu um tenente
que usava polainas e dançava com muito garbo.
Foi conta:
ela fugiu pra São Paulo com o tenente
e me deixou na mão.
A segunda,
Maria do Carmo,
era uma pequena dos bons tempos
que a gente conversava no portão a noite,
romântica de olhos pretos não gostava de bailes.
Aquela sim,
mas apanhou um resfriado de tanto conversar comigo no portão
e bateu a bota.
Lá está num cemitério em Belorizonte
onde tem muita paisagem.
As três Marias restantes estão no céu.
Murilo Mendes
Profundamente...
Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci.
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.
Manoel Bandeira
Sem Explicação
Quis raciocinar, me faltou inteligência
Fui meditar, me faltou pasciência
Resolvi esquecer, me faltou frieza
Passei a buscar, me faltou encontro
Deixei como está, me faltou vida
Paulo Farias
Sabe aquelas coisas que tentamos explicar ou fazer qualquer
coisa para tentar ao menos entender e não obtemos sucesso?
Pois bem, essas são as coisas do coração. Como já dizia o
compositor "Quem um dia irá dizer que existe razão pras
coisas feitas pelo coração...e quem irá dizer que não
existe razão...
quarta-feira, 22 de abril de 2009
"Nos Trilhos da Saudade"
Me lembro quando era garoto
E saía a passear de trem
Pelos trilhos da Velha Sorocabana
Sentido interior, ia visitar minha tia em Jandira
Mas, de vez em quando, invetíamos o sentido
E partia rumo à Capital Paulista, visitar a outra tia
Em Vila Brasilândia
Ia com meus pais e meus irmãos
...
O tempo passou...
Um dia cresci, me tornei moço
E continuei a utilizar esses trilhos, mas para trabalhar
A paisagem havia mudado, mas não muito
Ainda tinha muita natureza, nas áreas militares de Barueri
...
O tempo passou
Mais uma vez deixei os trilhos da Velha Sorocabana
Hoje é tudo muito diferente
A paisagem mudou muito
O que era só natureza virou cidade, avenidas, prédios
As casinhas velhas da Aldeia sumiram
Deram lugar a sintuosos prédios, com fachada de vidro
....
E o tempo passou
Paulinho Farias
